terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sentir gosto? Ah, não!

Vigésimo primeiro dia


Hoje não chamei a Goudy. Não mostrei o que modifiquei. Não quis ouvir que faltava isso ou aquilo, que a face X estava me levando para Y e não ao centro. Não sei para onde estou sendo levado, não sinto minhas mãos serem pegas para um passeio. Devo ir para a direita? Ok. Para a esquerda? Então tá.

Tem dias que minha relação com a peça não é das melhores. Sinto total antipatia. Quero terminá-la, preciso vencer, ao mesmo tempo que quero vê-la longe, tão distante quanto uma recordação da infância. Uma vaga lembrança. Mas venho aprendendo muito. Ter chegado até aqui foi penoso, difícil, mas uma vitória pela persistência e poder de resistir às pressões/dificuldades. É como se eu fosse o tal centro, sofrendo impulsos de todos os lados, sendo esmagado. Tenho meu lugar, não cederei espaço, ampliarei o que já tenho. Não vou recuar.

Uma outra coisa que noto com clareza é que não consigo ficar muito tempo em uma só face. Sempre que arrasto massa para a do lado, pronto, lá vou eu deixar tudo lisinho. Não com relação à textura, mas com o acumulo de argila. Quando vejo já perdi foco na face anterior, a peça já girou e, com isso, fico mexendo em tudo por ad eternum. Até por ainda não ver, ouvir e sentir o que a escultura está pedindo.

No começo da aula a Goudy nos falou um pouco sobre como seria a fisionomia de uma pessoa séria, muito inteligente e senhor de si. Alguém frio, retraído, que não se importaria de o mundo acabar. Falou-se da figura/personagem/pessoa de Ahrimam, o qual ainda desconheço em detalhes. Depois ela abriu a caixa que tinha sobre a banqueta e tirou uma escultura feita por Steiner de Ahrimam. Segundo ouvi, ele criou isto a partir de um encontro espiritual com tal entidade. Fiquei impressionado!

A Renata falou que refez o último passo do nosso trabalho em casa e que tinha ficado exatamente da mesmo forma como havia feito em classe. A Goudy explicou que isso se deve ao fato de que foi apenas refeito o exercício, fez o b-a-ba, o passo a passo. Ainda não existiu a expressão da artista.

Mas foi agora que enlouqueci. A Cacau afirmou ter notado uma maior salivação durante uma das atividades. A Goudy disse para prestarmos atenção em que gosto tem, se é salgado ou doce... Ouvi da Renata que tinha gosto amargo, lembrando alcachofra. Meu Deus, o que é isso? Tenho que ouvir, ver e sentir o que a argila está me dizendo... e agora sentir o gosto? Que tal gosto de terra? Deve ser coisa de mulher com muito hormônio sem ter o que fazer. Desgovernados.

IMPRESSÃO: pobre de mim. Achei que já estava imerso em dúvidas e questões mil. Sabe aquela sensação que temos quando, ao determinarmos uma meta, um ponto final em uma estrada longa e reta, na medida em que vamos progredindo temos a impressão de que estamos chegando, e a cada minuto percebemos que estávamos enganados? Que é bem mais longe? Pois é.

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